Jung: um humanista moderno

Jung: um humanista moderno

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Carl Gustav Jung, médico psiquiatra e psicoterapeuta, estruturador da Psicologia Analítica, primeiro presidente da Sociedade Internacional de Psicanálise, considerado um dos grandes humanistas do século XX, comemora no próximo dia 26 de julho, cento e trinta e nove anos de seu nascimento.

Incompreendido por muitos, endeusado por tantos outros, caminhou entre seus iguais e seus diferentes com simplicidade e desenvoltura, sempre fiel às suas teorias que são os retratos revelados de si mesmo, amalgamado às observações empíricas de tudo que ocorria à sua volta. A grande cultura armazenada se devia à necessidade de conhecer profundamente a cultura de seus pacientes e amigos a fim de exercer da melhor forma possível seu trabalho e suas relações pessoais e sociais. A necessidade de abarcar para a psicologia pesquisas sobre temas como mitologia, alquimia, fenômenos ditos ocultos, etc., que estavam à margem da ciência mecanicista da época, teve como objetivo encontrar o significado simbólico para seus experimentos.

Para seus trabalhos comparativos visitou povos primitivos ao viajar para Uganda no norte da África, Quênia na África Oriental, índios Pueblos no México, entre outros, e com isso absorver o sentido verdadeiro de ser humano para então teorizar sobre o Inconsciente Coletivo como sendo a base comum a todos os seres humanos.
Explorou intensivamente os sonhos e fantasias de seus pacientes por meio de diálogos entre o consciente e o inconsciente, pois, via nesta ponte ligações efetivas para restabelecer a saúde psíquica das pessoas, orientando-as a ficarem atentas aos seus significados pessoais e coletivos, decorrentes de seus sintomas e dificuldades, levando-as a um processo por ele denominado de individuação.

Jung desceu ao Hades e voltou mais experiente para ser o guia para aqueles que ficaram perdidos pelo caminho da existência: “Sou eu próprio uma questão colocada ao mundo e devo fornecer minha resposta, caso contrário, estarei reduzido à resposta que o mundo me der” (Jung).

Suas experiências pessoais e de seus pacientes unidos a aspectos da teoria da relatividade e da física quântica, aprendida junto à Wolfgang Pauli e Alberto Einstein, ambos Prêmio Nobel de Física, e também, às informações sobre pesquisas em parapsicologia de Joseph Banks Rhine, levaram Jung a sugerir que camadas profundas do inconsciente não dependem das leis de espaço, tempo e causalidade para produzir efeitos como a clarividência e precognição – acontecimentos interiores e exteriores – tendo significado comum, ao qual denominou de sincronicidade.

Foi eminente colaborador junto a Freud, justificado pelas trezentas e cinquenta e nove cartas trocadas entre ambos no período de 1906 a 1913 e o profundo abatimento que caiu sobre eles ao término do relacionamento, após a publicação do livro Símbolos da Transformação, de Jung, especialmente no capítulo intitulado O Sacrifício, onde deixa claro sua linha própria e autônoma de pensar sobre a sexualidade. O crédito que dava à religiosidade como função psíquica, também, foi tema irreconciliável para ambos, provocando a dissidência de Jung do movimento psicanalítico.

A interação entre eles permitia a exploração e crítica sobre seus trabalhos comuns e sonhos pessoais. Freud doava a Jung uma representação paternal diferente daquela que experimentara com seu próprio pai, a quem dizia faltar certezas e coragem para questionar principalmente suas questões religiosas. Por outro lado, Jung, como via Freud, contribuiu para a psicanálise, resumido por Papadopoulos (1984) com a introdução de métodos empíricos e experimentais, o conceito do Complexo, a instituição da análise de treinamento, o uso de amplificações mitológicas e antropológicas e a aplicação da teoria psicanalítica à Psicose.

Indiretamente influenciou na criação da entidade denominada Alcoólicos Anônimos, por intermédio de seu ex-paciente Mr. Rowland, nos idos de 1930, onde milhares de pessoas se recuperaram do vício do álcool. Segundo o próprio AA muitas das publicações deste grupo são baseadas na teoria de Jung.
Jung tornou-se conhecido e respeitado no Brasil, quando Nise da Silveira, médica psiquiátrica, o procurou para que a auxiliasse a compreender os simbolismos presentes nas pinturas e esculturas de seus pacientes.

Carl Gustav Jung, suíço de nascimento, cidadão do mundo, deixou um legado importante que ao longo do tempo está sendo reconhecido e se estende por diversos setores da vida humana refletindo não só nos consultórios psicológicos como também na física do holomovimento de Bohm, na ecopedagogia de Capra, na transdisciplinaridade de Rocha Filho, na alma do mundo de Goswami, nos campos morfogenéticos de Sheldrake, na psicologia profunda e na ecopsicologia norte-americana.

Lago de Zurique

Lago de Zurique

Faleceu no dia 06 de junho de 1961, tranquilamente em sua casa, às margens do lago de Zurique, em Kusnacht, Suíça, consciente de que sua vida… “é a história de um inconsciente que se realizou. Tudo o que nele repousa aspira a tornar-se acontecimento, e a personalidade, por seu lado, quer evoluir a partir de suas condições inconscientes e experimentar-se como totalidade”.(Jung)

Elizabete Ruivo

Psicanalista

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