Por que a Psicanálise?

Por que passados mais de um século de seu nascimento e mesmo após tantas críticas e dissidências, além das constantes descobertas da neurociência e das medicações psicotrópicas, ela subsiste? Por qual motivo deveríamos acreditar e nos submeter a esse tratamento?

Há mais de um século a psicanálise permeia a humanidade emprestando a sua escuta, a sua atenção flutuante às mazelas da alma de todos os indivíduos que carregam inúmeros sofrimentos, de causas diversas, sejam elas patológicas ou não. A figura histérica e ou obsessiva de outrora, pacientes de Freud e de seus contemporâneos do início do século XX, cede lugar, nos dias atuais, aos narcísicos e depressivos, mas a mesma ferramenta, a mesma técnica, ainda é capaz de auxiliá-los em suas feridas, em suas dores.

É bem verdade que o homem de nosso tempo tem pressa e uma gigante e interminável evitação dos conflitos e dos sofrimentos. Ele deseja controlar, prevenir e se possível impedir as más sensações muitas vezes através de fórmulas mágicas, o que é tentador, mas ilusório, afinal, como seria possível fugir de si mesmo, como seria viver sem afeto?

Este homem tem buscado por um prazer interminável, ininterrupto, por uma felicidade eterna, seja no mundo material ou no “mundo espiritual” e muitas vezes opta por medicações psicotrópicas (nem sempre necessárias), que de fato eliminam dores, insônia, mas costumam levar junto a espontaneidade, as emoções agradáveis, o raciocínio ágil, dentre inúmeros outros efeitos colaterais.

Não pretendemos com essa fala descartar a grande utilidade das medicações, pois isso seria negar o avanço científico que, de fato, mostram resultados e que em inúmeros casos são indispensáveis.

Pois bem, a verdade é que os remédios, as “baladas”, os amigos, a família, a religião, os mais diversos bens materiais, o dinheiro, os recursos tecnológicos atuais e todo o conforto oferecido para muitos nos grandes centros urbanos não têm sido suficiente para preencher esse ser humano, cheio de grandes lacunas, que busca algo sem saber o que…

Em geral é o sofrimento, a dor e a busca de sentido que levam um paciente ao divã, mas nada será mágico… é preciso disposição da alma para olhar-se, apoderar-se dos seus desejos para então subjugá-los – quando necessário, o que exigirá, por inúmeras vezes, um confrontar-se, um negar a si mesmo, um assumir-se e colocar fim às inúmeras projeções, para com isso perceber-se como o único responsável pelas próprias escolhas.

A psicanálise resiste em meio a uma sociedade que segundo uma lógica narcísica que não quer ouvir falar de culpa, de desejo, de inconsciente e que foge da subjetividade; que olha para os sucessos dos indivíduos, medem as suas deficiências, eficiências e o quantificam, numa lógica reducionista e biológica.    De fato, nos falta uma “medida padrão”, ou uma “garantia de cura”, ou “comprovação efetiva nos resultados”, mas isso é uma característica própria dessa ciência humana que não deve reduzir em nada o seu valor, porque a análise respeita a subjetividade que consiste sempre numa “escolha” do próprio paciente, porque cabe a cada um ser senhor de si e de sua vida.

O trabalho psicanalítico deve ser visto como oportunidade dada ao indivíduo de se perceber, de diminuir as suas projeções e com isso, diante de uma nova perspectiva, ter um outro fazer, escolher um outro viver, ou não, pois não existe um jeito único, ou certo de agir ou de sentir, mas existe um mundo cheio de potencialidades e novas possibilidades.

Por que fazer análise?

Porque não existe um único ser vivente que passe pela vida sem frustração e sem dor e essa já começa lá no nascimento. Porque não há quem passe por essa vida sem busca de significação, de sentido e estas buscas podem se dar por formas e caminhos diversos, mas a psicanálise é a única que observa um inconsciente atuante, que ouve um ser desejante, universal e ao mesmo tempo respeita sua infinita singularidade.

Porque ela dá lugar à palavra, para um homem que não se sente ouvido tampouco compreendido. É no setting analítico que temos a possibilidade de falar, de sermos ouvidos e ao mesmo tempo de nos ouvir e descobrir o que há de sagrado em nós.

 

Mirna Colazingari

Psicanalista – IBCP Psicanálise

 

REREFÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

ROUDINESCO, Elizabeth. Por que a psicanálise? Tradução: Vera Ribeiro. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 2000.

4 Comments Added

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  1. DeborahS Freitras 19 de outubro de 2017 | reply
    Muita verdade em poucas palavras!!
  2. Luiz Paulo 19 de outubro de 2017 | reply
    Bom artigo
  3. Cleuton Serra Rocha 20 de outubro de 2017 | reply
    Preservar e difundir as conquistas de grandes homens que serviram e servem à humanidade com seu trabalho é dar sentido ao sagrado humano, é manifestação amorosa de gratidão.
  4. Adriana 31 de outubro de 2017 | reply
    Em tempos tão dinâmicos, feliz de quem pode ter a oportunidade de falar e ser escutado sem julgamentos.

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