Um paciente conta um sonho na terceira sessão do mês.
Ele dirige à noite, no carro do pai, por uma estrada que conhece bem, e o freio não responde. Acorda antes da batida, com as mãos suadas.
O analista escuta, reconhece o carro do pai, o freio, a perda de controle, a doença do pai que o paciente mencionou semanas antes, e diz o que viu.
O paciente responde: “É isso mesmo. Nunca tinha ligado uma coisa à outra.”
Na semana seguinte, o sonho não volta à conversa.
Nada nessa sessão parece um erro. A leitura era plausível, o paciente concordou e o vínculo seguiu firme.
Os erros mais comuns com sonhos têm essa característica: não aparecem no momento em que acontecem.
Aparecem depois, como aquilo que deixou de ser dito nas sessões seguintes.
Esses erros também raramente vêm da falta de estudo. Vêm de quem leu os autores, conhece os padrões e os reconhece rápido.
O repertório que ajuda a entender um sonho é o mesmo que ajuda a entender cedo demais.
Os sete erros abaixo seguem a ordem de uma sessão: como o analista escuta, o que escuta, para que escuta, para quem o sonho é contado, quando ele fala, o que faz com a resposta do paciente e o que faz com o sonho no fim.
1. Ouvir o sonho como um texto a decifrar
Freud separou o método dele de uma tradição antiga: os livros de chaves de sonhos, em que cada imagem tem um significado fixo.
Ele rejeitou esse caminho e propôs outro, em que cada elemento do sonho é investigado a partir das associações de quem sonhou.
Quase todo analista concorda com isso em teoria. Na prática, o erro volta de forma silenciosa.
Depois de anos de estudo, ninguém abre mais um dicionário de símbolos, mas o dicionário passa a funcionar de cabeça:
O carro vira o eu, a água vira o inconsciente, o pai vira a autoridade, a queda vira o fracasso.
O problema é que esse dicionário responde antes de a pergunta ter sido feita.
Um cachorro que persegue o sonhador pode ser, para uma paciente, a ameaça de uma pessoa real.
Para um paciente, pode ser o cachorro da infância, que morreu quando ele tinha dez anos.
A mesma imagem tem sentidos diferentes porque cada um viveu histórias diferentes.
Quando o analista decifra, ele troca o sentido do paciente pelo sentido da tradição. O paciente passa a ouvir uma história sobre si que não é a dele, e raramente percebe a troca.
2. Ouvir só o conteúdo e perder o modo de contar
Um paciente conta o sonho e o analista guarda as imagens: quem estava lá, onde, o que aconteceu.
O resto passa como moldura. Só que o jeito de contar também é material.
O paciente que começa pedindo desculpa porque “é só um sonho bobo” já disse algo sobre o que espera de si e do analista.
Quem hesita num detalhe (“era meu irmão ou meu primo?”) mostra onde algo pesa.
Quem conta rindo de um sonho de perda mostra um afeto que o conteúdo não carrega. E o sonho que o paciente esquece de repente, ou só lembra no fim da sessão, diz algo sobre aquele momento da análise.
Freud tratava a dúvida e o esquecimento no relato como sinais de resistência.
Notava também que o afeto muitas vezes resiste à deformação que muda as imagens, e por isso pode ser a parte mais confiável do sonho.
O erro aqui é de atenção. O analista que olha só para o que o sonho mostra perde o que o paciente faz ao contá-lo.
3. Usar o sonho para confirmar a teoria
Todo analista escuta com uma teoria na cabeça.
O erro começa quando a teoria deixa de orientar a escuta e passa a escolher o que vale a pena escutar.
O homem de terno vira o pai, a criança vira o eu infantil, a enchente vira angústia ou trauma, conforme a escola.
Se tudo cabe na teoria, o sonho nunca surpreende, e um sonho que nunca surpreende provavelmente não está sendo escutado.
Há um agravante: o paciente aprende a língua do analista.
Freud chegou a observar que pacientes podem produzir sonhos que dialogam com a teoria de quem os atende, e a tradição psicanalítica discute esse efeito desde então.
Quando o analista só reconhece o que já sabe, e o paciente só traz o que é reconhecido, os dois constroem juntos uma confirmação circular.
Bion propôs, como direção de trabalho, escutar sem memória e sem desejo: sem apego ao que já se sabe e ao que se quer ver.
Ninguém consegue isso por inteiro, mas a ideia ajuda a perceber quando a teoria está falando mais alto que o paciente.
4. Esquecer a quem o sonho é contado
Um sonho contado em sessão é, ao mesmo tempo, uma lembrança e um ato dirigido a alguém.
Ferenczi escreveu sobre isso já em 1913, num texto sobre a quem se contam os sonhos:
O relato leva uma mensagem para o analista, além do que o sonho diz.
O erro aparece quando o analista trata o sonho como um objeto solto, que poderia ter sido contado a qualquer pessoa ou escrito num diário.
Imagine o paciente que traz um sonho em que um médico o abandona, na véspera de um feriado em que o analista vai viajar.
Ou a paciente que conta um sonho longo e bonito justo na sessão em que estava difícil falar do que a trouxe até ali. Ou aquele que traz sonhos sempre que quer agradar.
Em nenhum dos casos o sonho é só sobre o médico, o bairro ou a viagem. Ele também fala da relação, de como o paciente se sente diante de quem o escuta.
Ignorar isso reduz o sonho a uma imagem sobre o passado e perde o que ele diz sobre o presente da análise.
5. Interpretar cedo demais
Este é o erro que o sucesso esconde. O analista reconhece o padrão, forma a interpretação, tem quase certeza de que está certo e diz.
A interpretação pode ser excelente e, ainda assim, ser dita na hora errada. É o que se pode chamar de estar prematuramente certo.
O “encaixe” que o analista sente é uma sensação dele. Ela chega com o mesmo calor quando a hipótese é verdadeira e quando é apenas familiar.
Quanto mais estudo, mais encaixes rápidos, então a velocidade do encaixe diz mais sobre o repertório do analista do que sobre a distância entre o paciente e o que foi visto.
Freud já alertava para isso em 1910, no texto sobre a psicanálise “selvagem”:
Contar ao paciente o que se sabe sobre ele resolve pouco, porque o saber do analista só ganha efeito quando o paciente chega perto dele por conta própria.
Winnicott disse algo parecido de outro ângulo: a interpretação dada antes de o material amadurecer pode virar doutrinação, e o paciente responde com submissão.
Uma interpretação certa e antecipada dá ao paciente uma explicação e tira dele o trabalho de encontrar a sua.
6. Confundir concordância com compreensão
Depois da interpretação, o paciente responde, e é aqui que o erro anterior costuma passar sem ser notado.
“É isso mesmo” soa como confirmação. Mas pode ser alívio por ter uma explicação, cortesia, desejo de ser um bom paciente ou intelectualização:
O paciente entende a frase sem que nada nele se mova.
De fora, a resposta de quem concordou por obediência e a de quem compreendeu são quase idênticas.
Ninguém corrige esse erro, porque ele é recompensado dos dois lados. O paciente sai aliviado. O analista sai com a sensação de ter acertado.
Não há reclamação, e o que se perdeu (as associações que viriam, a lembrança que apareceria na semana seguinte) nunca aparece como perda.
Por isso, o erro se repete por anos e pode passar por competência.
Um sinal indireto está no destino do sonho depois da sessão.
Se ele sai da conversa logo depois da interpretação, a interpretação pode ter encerrado o trabalho em vez de iniciá-lo.
7. Tratar o sonho como um problema a resolver
O último erro vem da pergunta que o analista faz a si mesmo: “o que esse sonho quer dizer?”.
A pergunta pressupõe que existe uma resposta e que o trabalho termina quando ela é encontrada.
Freud descreveu que todo sonho tem pelo menos um ponto em que não se deixa aprofundar, e o chamou de umbigo do sonho, o ponto onde ele toca o desconhecido.
Isso significa que nenhum sonho se esgota, e que um sonho “resolvido” é um sonho que parou de ser trabalhado.
Há também um motivo menos nobre para resolver: o desconforto de não saber.
Ficar diante de uma imagem que ainda não significa nada é difícil, e o silêncio pesa no consultório.
Interpretar alivia, muitas vezes primeiro o analista e só depois o paciente.
Bion, retomando uma ideia do poeta Keats, chamou de capacidade negativa a capacidade de permanecer na dúvida sem correr atrás de fatos e razões, e a considerou parte do ofício do analista.
O que os sete erros têm em comum
Em todos eles, o analista se apressa para chegar a um lugar que já conhece.
Decifrar, escolher o que escutar, confirmar a teoria, esquecer a relação, falar cedo, aceitar o “é isso mesmo” e fechar o sonho são formas diferentes de encurtar o caminho do paciente até o que ele ainda não sabe.
O sonho trabalha na direção contrária. Ele é a parte da vida psíquica que o paciente não consegue encurtar, e por isso volta, dá voltas e escapa. Quem trabalha com sonhos precisa aceitar esse ritmo.
Volte aos dois segundos do começo. O que decidiu o que o analista fez ali?
Falta de estudo? Falta de cuidado?
Não! Foi o desconforto com o silêncio, somado à sensação de que o encaixe pedia para ser dito.
Sem um critério para decidir o que fazer com o sonho, quem decide é esse desconforto, e ele quase sempre escolhe interpretar.
Por isso os erros resistem à leitura. Mais repertório dá mais coisas para dizer, mas não ensina a decidir se é hora de dizer.
Essa decisão tem partes que podem ser nomeadas: se este sonho pede trabalho agora ou pode esperar, o que perguntar antes de falar, quando o silêncio faz mais do que uma interpretação e, por fim, o momento em que a interpretação serve.
É uma competência técnica. Ela se treina e não depende de intuição nem de anos de consultório.
E vale para os dois lados. Quem fala cedo demais e quem se cala por medo de errar estão decidindo sem critério.
O silêncio que sustenta é uma intervenção; o silêncio que foge da cena é só outra forma de pressa.
Nenhum desses erros é sinal de má formação, e a maioria aparece mais em quem estudou mais.
Reconhecê-los é o começo para não repeti-los.
Sozinho, porém, ele não basta: o que impede a repetição é ter, no lugar da urgência, um critério.
Duas perguntas para a próxima sessão em que um sonho aparecer.
A primeira: quem está com pressa, eu ou o paciente?
A segunda, mais difícil: o que, além da minha urgência, me diz o que fazer agora?
Obras citadas
Freud, S. A Interpretação dos Sonhos (1900)
Freud, S. Sobre a psicanálise “selvagem” (1910)
Ferenczi, S. A quem se contam os sonhos? (1913)
Winnicott, D. W. O Brincar e a Realidade (1971)
Bion, W. R. Notas sobre memória e desejo (1967) e Atenção e Interpretação (1970)



