Psicanálise e Educação Sistêmica: uma questão de lugar

“Tantas guerras eu perdi
Por ter razão demais
Quantos dias se passaram
Sem eu perceber
Quantos anos eu gastei
Antes de conhecer
O meu próprio cais”
Trecho da música “Venha” – Luiza Possi e Bárbara Rodrix

Muito se diz sobre a finalidade da educação, porém é inegável o fato de que ao inserir-se num ambiente educacional, seja a família, escola ou outras instituições, o indivíduo está desenvolvendo uma relação estreita com a realidade, onde a submissão a regras e leis garantem seu ajuste na vida em sociedade.

Por meio da educação experimentamos o princípio de realidade em substituição ao princípio do prazer onde todo desejo é possível. Perdemos nosso paraíso imaginário, aquele lugar bonito onde só existia prazer e os cuidados parentais. Perder o paraíso e encontrar um lugar na realidade não é tarefa fácil, representa um desafio tão grande que, muitos passam a vida inteira procurando o paraíso perdido, alguém ou algum lugar que supra todas as suas necessidades e nessa busca, não se dão conta do próprio lugar, que o prazer reside justamente no lugar que ocupamos e damos sentido na vida… No nosso lugar!

 

“Haverá um dia em que deveremos deixar de ser as crianças que sempre fomos, deixar as ilusões de lado e encarar a vida hostil, tal qual ela se apresenta. A isso eu chamo de Educação para a Realidade”.
Sigmund Freud

 

Neste sentido, a educação sistêmica, mostra-se como um recurso facilitador do contato do indivíduo com a realidade e do reconhecimento e apropriação de seu lugar na história e na vida e, pensar a relação da psicanálise com a educação sistêmica é pensar, sobretudo, na realidade da vida, nas possíveis possibilidades que se mostram a partir do lugar que ocupamos, é pensar no que fazemos do nosso espaço e do tempo que dispomos. É pensar no encontro de pessoas que juntas constroem um jeito real de ser e de fazer funcionar a própria vida e a sociedade. É pensar sobre quem somos, o que nos move, de onde viemos e para onde queremos ir.

No processo de apropriação do próprio lugar na vida, nossas relações afetivas acontecem de formas variadas, onde cada um procura de alguma forma um lugar para satisfazer aqueles desejos infantis, aqueles que ficaram lá no paraíso imaginário, mas que insistimos em manter sua lembrança bem guardada e protegida num lindo baú chamado inconsciente. Mas, ao mesmo tempo, somos atingidos também pelos desejos guardados no baú dos outros, pois todos nós temos nossos baús e buscamos um lugar para abri-los.

De vez em quando escapa uns desejos infantis e neste caso, a família e a escola são bons exemplos de lugares onde isso acontece, pois são lugares onde diferentes pessoas se encontram com seus diferentes baús à busca de seus lugares. Às vezes até trocam de lugar, por exemplo, o professor que “inadvertidamente” ocupa o lugar dos pais; o coordenador que “displicentemente” ocupa o lugar do professor; a mãe que “amorosamente” ocupa o lugar do pai… E por aí vai!!!

Trocando em miúdos, ao chegar à escola, o aluno e seus familiares trazem consigo suas bagagens de experiências, alegrias, frustrações, desejos e fantasias; suas histórias de vida… Seus contos de fada!!! Cada um buscando seu lugar dentro de um sistema familiar, cultural e social, que por sua vez encontram também professores, gestores e funcionários também com seus baús à procura de um lugar.

O paradigma educacional sistêmico desenvolvido pelo psicoterapeuta alemão Bert Hellinger, possibilita a criação de um ambiente onde todos possam reconhecer e assumir seu lugar nos diferentes sistemas (familiares, educacionais e institucionais), bem como reconhecer, valorizar e ser grato por todos que ocupam diferentes lugares e contribuem para a fluência da vida. A Psicanálise, bem como a educação sistêmica, consistem justamente no resgate da singularidade humana dentro de um sistema harmônico onde o reconhecimento e apropriação do lugar determina a razão da própria existência.

 

Anton “Suitbert” Hellinger (Leimen, 18 de Dezembro de 1925), conhecido simplesmente como Bert Hellinger, é um psicoterapeuta alemão, inventor das Constelações familiares. Fonte: Wikipedia

 

Quantos professores hoje perdem oportunidade de fazerem diferença na vida de seus alunos justamente por estarem fora de seus lugares, preocupados com questões que não lhe dizem respeito? Da mesma forma, quantos pais estão igualmente fora de seus lugares preocupados, inclusive em agradar seus filhos e dizendo para a escola o que precisam fazer? Quantos filhos, arrogantemente, sentem-se superiores a seus pais e professores assumindo um lugar que não lhes pertence? Estes são pequenos exemplos de pessoas fora de seus lugares e deixando de se apropriar com excelência daquilo que lhe cabe e, automaticamente, tirando outros de seus lugares, comprometendo a fluência sistêmica da vida e desperdiçando tempo e energia, construindo inclusive, doenças que se arrastam por gerações.

O reconhecimento e apropriação do lugar, torna-se um convite a se voltar ao ponto de origem, a resgatar a própria história e reconhecer e valorizar também o lugar que cada um ocupa, inclusive daqueles que foram excluídos de seus lugares. É reconhecer-se no sistema e na vida, valorizando a ancestralidade, fazendo as pazes com o passado, dando ao presente um real significado ao ocupar o próprio lugar, seu próprio cais.

Dulcinéia Mendes – Psicanalista

6 Comments Added

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  1. Patricia Rossi 14 de agosto de 2017 | reply
    Sou formada em constelação sistêmica e resolvi ser psicóloga por conta dessa experiência. A terapia sistêmica é transformadora, libertadora e profunda. Vejo a vida, meu relacionamento e meu trabalho com outros olhos.
    • Dulcineia Mendes 15 de agosto de 2017 | reply
      Prezada Patrícia, agradeço o comentário que valida a obra de Bert Hellinger e oportunamente te convido a conhecer o IBCP Psicanálise e o trabalho que tem sido desenvolvido no projeto "Psicanálise e Educação" sobre a abordagem sistêmica.
  2. Geruza Panossian 15 de agosto de 2017 | reply
    " A Psicanálise, bem como a educação sistêmica, consistem justamente no resgate da singularidade humana dentro de um sistema harmônico onde o reconhecimento e apropriação do lugar determina a razão da própria existência." Lendo o artigo senti-me provocada a refletir sobre comportamentos, que são explicados a partir do '' inconsciente '' pessoal , da bagagem que cada individuo traz consigo, e que pode ou não determinar seu lugar..ou muitas vezes .. lugar de outros. Apropriar -se de si MESMO talvez possibilite algum sucesso existencial, assumindo assim a nossa condição através da proposta : o resgate da singularidade. Ler, ouvindo a retórica impar, da querida mestra Dulci em sala de aula é um privilégio . Abraço professora.....Provocadora e Brilhante como sempre !
  3. eliana de barros santos 17 de agosto de 2017 | reply
    Excelente texto! Retrata bem os dilemas e os prazeres vividos dentro e fora dos limites de uma escola, da família e do pequeno mundo de cada indivíduo. Dar lugar aos sentimentos e refletir sobre as ações e reações que deles advêm abre espaço para que o equilíbrio sistêmico possa ser pensado. Parabéns Dulcineia, sempre em evolução!
  4. Adriana 25 de setembro de 2017 | reply
    Uma das chaves acredito que seja dar ao presente um real significado, hoje em dia as pessoas não possuem essa apropriação do lugar. Muito bom o texto. Parabéns Dulce!
  5. Ageu Heringer Lisboa 30 de setembro de 2017 | reply
    Belo encontro da psicanálise e sua iluminadora incursão ao interior dos sujeitos com a constelação sistêmica que revela nós e laços familiares e sociais que nos contextualizam na vida.

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