A corrupção no divã

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Está na moda falar em corrupção. Não é de se Espantar que, longe dos nossos disfarces, somos praticamente todos corruptos desde que nascemos. Bebês são corruptos quando choram e fazem “manha,” querendo que suas mães satisfaçam as suas vontades, por exemplo, pedindo alimento o tempo todo sem respeitar os intervalos de mamada. Se as mães não estabelecem um limite ou se eles (os bebês) não o aceitarem, seguirão compulsivos na corrupção ao longo de suas vidas, procurando tirar dos outros o que desejam.

Há solução para isto? E se houver, há vantagem? Mais importante: existe algum problema em ser assim? O corrupto é um vampiro: ele vive do sangue dos demais. Sem sangue ele morre e, após se alimentar, ele mata quem o nutriu. Psicanaliticamente podemos afirmar que ele ainda não existe, não é um sujeito. Abrir mão da corrupção é se apropriar da própria vida e se responsabilizar por escolhas e consequências. É trocar oportunismo por autonomia.

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Outro dia, numa entrevista de análise, ouvi a seguinte pergunta de um entrevistado bem empregado e bem vestido: “Qual o valor mínimo que posso pagar pela minha análise?” E em outra ocasião, de um outro entrevistado em condições econômicas precárias: “Vou me apertar um pouco mais, porém reconheçoque preciso de tratamento e que pode ajudar a recuperar minha condição financeira no futuro”.

O processo psicanalítico existe para combater a corrupção. O paciente abre mão do “ganhar-ganhar ” para entrar no “perder-ganhar”. Em sua análise, ele irá dispor de uma considerada quantia de valor em troca de um ganho interior. Este dispor é proporcional ao seu ganho interior, pois esta é a mensagem que está sendo enviada a seu cérebro. Mas a psicanálise é apenas uma técnica de autoinvestimento e autoconhecimento. Ela não é milagrosa.

Se o corrupto corromper a si mesmo, corrompendo a própria análise, a relação “perder-ganhar” torna-se pobre e a única mensagem enviada ao cérebro será “eu invisto pouco ou quase nada, eu valho pouco ou quase nada”.

Pensamentos como estes não podem curar a corrupção, mas apenas protegê-la, para que possa servir de herança aos nossos filhos e futuras gerações. E, sendo assim, não adianta reclamar e nem culpar a quem quer que seja!

Anderson Barros e Glaucia Araujo

Psicanalistas

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