Ansiedade tem cura?

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por Arnaldo Rodrigues | Psicanalista

 

Desde o surgimento da pandemia do coronavírus, tenho acompanhado a manifestação da ansiedade nas pessoas. Observo isso por meio de meu trabalho como psicanalista, assistindo noticiários ou em conversas com pessoas de meu convívio social. Algumas em verdadeiro pânico em meio a tudo que está acontecendo nesse momento. Ela pode se mostrar de diversas maneiras em cada um dos cenários que citei. Em alguns percebo evoluir para o pânico propriamente dito, no qual o indivíduo fica incapacitado de reação e se torna refém do sentimento de medo. O tema da cura para ansiedade é complicado pois entrelaça dois assuntos delicados, a ansiedade propriamente dita e a cura.

O primeiro, por se tratar de um estado emocional subjetivo, desagradável e desconfortável em sua manifestação, é entendido na sociedade atual como algo que precisa ser extirpado, arrancado como um “mal”, “o mal do século” como alguns profissionais da área da psiquê humana costumam rotular. Uma doença que deve ser tratada e extinta do organismo. Já o segundo assunto, a cura, está bem distante do conceito original, que seria, o restabelecimento da saúde, o reequilíbrio de um ser que, por algum motivo, se encontra disfuncional naquele momento. Hoje ela é entendida mais como uma solução simplista para algo que está acontecendo de “errado” na pessoa, carregada de uma ideia minimalista e estreita que coloca em um único polo o sucesso terapêutico. Tentar atribuir a um ser, ou pessoa, ou remédio um poder divino que num passe de mágica acaba com o sofrimento, sem que para isso a pessoa que sofre da enfermidade precise realizar algo para obtê-la.

A Ansiedade, esse estado emocional desagradável, é acompanhado por sensações físicas que alertam a pessoa contra um perigo iminente. O desconforto é frequentemente vago e difícil de descrever ou localizar, mas a ansiedade em si é claramente perceptível por aqueles que a sentem. Os sintomas mais comuns são: sudorese nas mãos, taquicardia e dispneia. Há, frequentemente associado a esses sintomas, uma agitação física. Uma necessidade de se movimentar, pois uma das formas de se reagir à ansiedade é movimentar-se. Muitos dos ataques de ansiedade que evoluem para o pânico acontecem em locais nos quais a movimentação não é possível, como elevadores por exemplo. Nessa situação a sensação de controle sobre o agir do indivíduo desencadeia esse estado emocional. Outra válvula de escape para a ansiedade são os distúrbios alimentares, em que o mastigar e beber são os movimentos necessários para diminuir a excitação. A utilização do álcool ou de drogas também é um meio muito buscado pelas pessoas para apaziguar o estado excitatório. Pode-se observar que no contexto atual todas essas manifestações estão presentes, pois o controle que o isolamento social causa, associado a uma proximidade com os conflitos familiares, aumenta a ansiedade.

Apenas o ego pode produzir ou sentir ansiedade, mas o id e o superego e o mundo externo estão sempre envolvidos em um dos três tipos de ansiedade: ansiedade neurótica, ansiedade moral e a ansiedade realística.

A ansiedade neurótica é definida como um sentimento de apreensão em relação a um perigo desconhecido. Uma pessoa pode sentir ansiedade neurótica na presença de um professor, de um chefe ou de alguma outra figura de autoridade e isso ocorre porque o indivíduo já sentiu, ainda na infância, sentimentos inconscientes de destruição em relação aos pais, as primeiras figuras de autoridade, e que também foram as primeiras figuras a puni-lo de alguma forma por algo que julgavam inapropriado. Sentimentos de hostilidade em relação aos pais frequentemente são acompanhados pelo medo da punição e esse medo torna-se generalizado para outras figuras de autoridades na ansiedade neurótica inconsciente.

A ansiedade moral vem depois que o superego se estabelece, por volta dos 5 ou 6 anos de idade. O indivíduo pode experimentar ansiedade moral como um subproduto do conflito entre os seus desejos e as exigências irrealistas do superego. Esse tipo de ansiedade pode surgir por exemplo se a pessoa sente a necessidade de fazer algo que ela considera moralmente errado pois o Ego reage ao julgamento do Superego que provoca sentimentos de vergonha e culpa. A ansiedade moral também pode surgir se o indivíduo falhar em algo que ele acreditava ser um dever moral, como por exemplo na situação atual dessa pandemia, a pessoa se reúne com familiares em desacordo com a determinação dos órgãos públicos de saúde. Nesse caso, a pessoa pode manifestar todos os sintomas de uma ansiedade, além daqueles que o superego julgar cabíveis, inclusive os sintomas que a doença COVID-19 manifesta em uma pessoa realmente infectada.

Já a ansiedade realística pode se apresentar como um sentimento desagradável não específico envolvendo um possível perigo. Fazendo-se uso da realidade atual, por exemplo, a pessoa pode sentir ansiedade realística ao entrar em um hospital no qual sabe possuir pessoas infectadas e doentes. Esse caso é uma situação carregada de um perigo real e objetivo. Nessa situação a ansiedade não envolve uma ameaça específica, pois ela pode ser contaminada por qualquer doença em um ambiente como esse. Caso surja, nesse exemplo, uma pessoa de seu convívio com o coronavírus ela passa a ter medo, pois agora existe uma ameaça claramente identificável.

Os três tipos de ansiedade descritos raramente são possíveis de se separar de forma nítida e fácil. Elas frequentemente combinam-se entre si. Alguém pode ter medo de cachorro que é um objeto real e esse medo pode se tornar desproporcional para essa situação, precipitando uma ansiedade neurótica. Uma ansiedade, nesse tipo de situação, indica que um perigo desconhecido está subjetivamente conectado ao período externo.

O nascimento, segundo Freud, é o nosso primeiro grande trauma e ele é o protótipo de todas as futuras ansiedades. No útero, o feto, está no mais estável e seguro dos mundos. Todas as suas necessidades são satisfeitas sem demora. Mas ao nascer, o organismo é trazido a um ambiente hostil que bombardeia o seu sistema nervoso imaturo com sons e temperaturas diferentes, toques e movimentos, que o obriga a respirar por conta própria e acelerar seus batimentos cardíacos. De repente o bebê precisa começar a se adaptar a esse novo mundo no qual suas necessidades não serão satisfeitas automaticamente. Dessa forma, o trauma do nascimento torna-se a primeira experiência com a ansiedade e é a partir dessa experiência que serão criados os padrões de reação e sentimentos que ocorrerão sempre que for exposto a alguma reação no futuro.

Ansiedade é um indicativo de que algo não está bem na personalidade e que o perigo pode estar próximo. Ela faz com que o ego permaneça alerta aos sinais de ameaça, permitindo ao indivíduo fugir se for o caso ou se defender. Ela é também auto reguladora pois desencadeia os mecanismos de defesa do ego, como a repressão por exemplo, sem os quais a ansiedade tornar-se-ia intolerável.

Como pode ser visto, a ansiedade deriva de diversos fatores e pode desencadear uma gama de reações na pessoa. Algumas altamente destrutivas, outras muito benéficas. Ela tem uma funcionalidade, que quando está em desequilíbrio pode ser deletéria e incompatível com uma vida saudável, tanto quanto não a ter. Do ponto de vista psicanalítico é impossível não se ter ansiedade, pois é algo que está gravado em um dos registros mais antigos da experiência do indivíduo, o nascimento, e profundamente enraizado no desenvolvimento filogenético da espécie humana. Está muito mais profundo, no inconsciente propriamente dito, que é muito além do reprimido freudiano.

Felizmente, existe um tratamento e uma resolução para a ansiedade. Algo que restabelece a saúde física e mental, possibilitando uma retomada da funcionalidade desse estado emocional, dando a ele um lugar apropriado. Diferentemente de outras abordagens terapêuticas, a psicanálise proporciona um tratamento para aqueles que querem a cura, algo que está muito além de um simples anular de sentimentos. Ela respeita e dá um lugar para algo que a natureza fez e que preservou na herança genética do ser humano, a vida. Não seria uma inversão de nossa espécie eliminar algo que foi preservado em nossa essência?

Referências: FREUD, S. (1925-1926) Inibições, Sintomas e Ansiedade. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

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