As regras do jogo

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Por Luís Vanderlei Bianco | Psicanalista

Para se tornarem civilizados, os seres humanos tiveram que reprimir e ocultar a hostilidade, a agressividade e o desejo de poder. Tal repressão resultou do estabelecimento das leis e das regras de comportamento às quais, observadas por todos, têm como objetivo garantir a convivência social pacífica e respeitosa.

No entanto, os seres humanos podem sentir-se descontentes com esse processo civilizatório, com as leis e os princípios que devem obedecer e, com frequência, procuram formas de descumpri-los. São notórios o desrespeito às normas e a falta de ética no mundo moderno, pondo à mostra, em diversas ocasiões, aqueles impulsos primitivos reprimidos.

Tais impulsos podem ser facilmente identificados quando se observam as reações geradas pela hostilidade entre grupos, como por exemplo, nas disputas esportivas.

Muitas pessoas já não se surpreendem com relação àquelas atitudes abusivas e incivilizadas que se testemunham na vida diária. No entanto, a ocorrência delas na atividade esportiva permite uma observação privilegiada do quão enraizados estão e quão atuantes são aqueles impulsos nos seres humanos e, consequentemente, dos danos que eventualmente podem causar. Isto porque, devido à ampla divulgação, audiência e alcance dos eventos do esporte, é gerada uma repercussão no comportamento da massa, daqueles que os acompanham: contaminando-os e servindo-lhes de exemplo. Principalmente nos esportes coletivos, mais precisamente no futebol embora não estejam ausentes dos esportes individuais.

Não deve ser esquecido, no caso do futebol, em particular, o fato de que ele atrai, além de multidões de adultos, imensa audiência infantil: crianças que frequentam, inclusive, os estádios, levadas pelos pais ou responsáveis. Crianças que podem testemunhar, além dos adultos, naquele esporte, situações de violência que se sobrepõem, muitas vezes, à disputa ética.

No futebol, o ressurgimento daqueles impulsos hostis, bem como suas graves consequências quando se considera seu poder de contaminação como o fanatismo, o aumento da rivalidade e a violência entre as torcidas, por exemplo pode ser claramente constatado na utilização de recursos para enganar e descumprir as normas, de maneira ostensiva ou camuflada.

Observe-se que, na medida em que tais atitudes tornam-se mais corriqueiras, dissimuladas e de difícil detecção, novas formas de controle, para não dizer vigilância, passam a ser exigidas. No futebol, um juiz já não é suficiente para garantir o respeito às regras e a disputa ética. Há outro juiz agora, auxiliado, por sua vez, pela tecnologia.

O aumento das atitudes agressivas, o desrespeito às normas sociais, e, não só no esporte, tomado aqui apenas como exemplo, passam a exigir, no convívio social em geral, maiores medidas de controle e vigilância às quais, por sua vez, não impedem a manifestação daqueles comportamentos hostis e transgressores.

A Psicanálise permite uma outra abordagem à questão, ou seja, a de possibilitar que as pessoas, através do autoconhecimento possam se conscientizar cada vez mais dos seus impulsos agressivos e infratores, permitindo, dessa forma, novas escolhas num clima de respeito aos princípios da civilidade.

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