E quando a criança pergunta: Papai Noel existe?

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Dolores Araújo | Psicoembrióloga e Psicanalista

O final de ano além de demarcar, segundo o calendário juliano, a conclusão de um ciclo, é o período em que entra em cena a lendária, carismática e secular imagem de Papai Noel. Período em que aquela pergunta que não cala atormenta, particularmente, pais e educadores: Papai Noel existe?

Para a Psicoembriologia, os contos têm relevância no desenvolvimento psíquico infantil, e a história do Papai Noel não é diferente. O bom velhinho inspirado no poema de Clement Moore, escrito no século XIX traz na sua essência a esperada visita de São Nicolau na véspera de natal, despertando o imaginário na criança com suas peculiaridades indiscutíveis. O Papai Noel tem dia e hora para chegar. Tem endereço fixo, onde recebe cerca de 7 milhões de cartas por ano, e pode ser encontrado nas redes sociais. Conta com o aparato de diferentes meios de comunicação para anunciar a sua chegada e com as suas nove renas que guiam um trenó, traz num saco pendurado nas costas os presentes tão desejados.

É por meio dos contos e histórias, inclusive a de Papai Noel, que as crianças fantasiam e elaboram suas questões internas, dando vazão às suas angústias, dores e aflições. A perspectiva do final feliz, que perpassa a maioria dos contos e histórias, encorajam-nas a atravessar momentos difíceis. É dessa forma lúdica que a criança vai aprendendo a conviver com frustrações e aos poucos se constituindo e se fortalecendo psiquicamente.

Toda criança precisa conviver com o campo do imaginário e o da realidade e ambos devem ser preservados.

A psicanalista e pediatra Françoise Dolto destaca que não mentimos quando falamos dos mitos para as crianças. Mitos são verdades sociais. Ela sugere que pode ser uma boa ideia fantasiar uma criança de Papai Noel e explicar que dessa vez será ela quem irá colocar os presentes na árvore de natal, e quando estiver em qualquer outro lugar onde o Papai Noel esteja presente, esclareça que alguém ali está fantasiado de Papai Noel. E se a criança perguntar onde está o verdadeiro Papai Noel? Basta responder que o de verdade a gente não conhece, que é alguém do imaginário.

De qualquer forma, na hora certa, quando a criança estiver madura descobrirá a verdade por conta própria.

O conto de Papai Noel é uma transição, uma espécie de rito de passagem para uma fase de maior amadurecimento, quando a criança não está tão imersa na fantasia e vivencia mais a realidade. Cada uma no seu tempo e esse tempo precisa ser respeitado.

Concretamente, quando a criança pergunta sobre a existência de Papai Noel é porque tem dúvidas. Há casos em que ela, em conversa com os amiguinhos, descobriu que Papai Noel não existe, mas continua no “faz de conta”, embalada na tradição da família.

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