Depressão ou Melancolia

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por Cristina Costa | Psicanalista

A Melancolia se caracteriza por um sentimento crônico e profundo de tristeza e desespero que tem preocupado filósofos, sacerdotes, artistas e médicos desde a Antiguidade. Palavra de origem grega que significa literalmente Bílis Negra (Melan significa negro e Cholis, bílis), a melancolia sempre chamou a atenção por seus variados sintomas físicos e psicológicos – falta de apetite, perda ou ganho de peso, insônia, ansiedade, inquietação, desânimo e falta de concentração, entre outros. Nas civilizações mais antigas, as explicações para esse estado tão sofrido eram atribuídas inicialmente aos deuses, uma espécie de penalidade ou vingança das divindades contra o enfermo. Depois, com uma compreensão mais materialista do homem, a melancolia passou a ser de responsabilidade dos humores, como defendeu Hipócrates no século IV a.C. Os humores seriam substâncias corporais cujo desequilíbrio causaria doenças no cérebro – eram eles a bile amarela, a bile negra, o fleugma e o sangue que, provenientes do fígado, baço, cérebro e coração respectivamente, conduziriam as emoções e o caráter. Aristóteles, prosseguindo nessa análise que relacionava corpo e espírito, afirmava que a melancolia estaria ligada também à genialidade e à introspecção, própria dos pensadores.

Na Idade Média, com a importância que passa a ter o pensamento cristão católico, a melancolia passa a ser diagnosticada como consequência de um afastamento de Deus. Assim, transtornos mentais, entre eles a melancolia, teriam origem religiosa e poderiam ser combatidos por uma aproximação com Deus e as escrituras sagradas. No Renascimento, retomam-se os princípios de Hipócrates e a crença de que a melancolia tinha relações próximas com a mente e a dedicação dos pensadores às práticas cerebrais. Já na Modernidade, com o avanço da medicina e da psiquiatria, os estudos e os métodos de cura progridem, sempre com medidas complementares que buscam integrar corpo e alma – exercícios físicos, vida ao ar livre, etc. Foi com a psiquiatria que a melancolia se define como uma patologia e se populariza como depressão.

Na psicanálise, a melancolia foi definida por Freud em seu livro Luto e Melancolia – enquanto o luto é um desprazer ou dor temporária que sobrevêm a uma perda, seja de uma pessoa, de um objeto ou de uma situação com os quais mantemos íntima relação de identidade e afeto, a melancolia se caracteriza por um estado crônico e profundo de vínculo com o que foi perdido. Muitas vezes, o enlutado não consegue se desprender daquilo que não existe mais, nem recuperar a força vital que foi entregue e depositada naquilo que desapareceu. Há uma recusa em aceitar o princípio de realidade que evidencia a finitude do que se amou.

Diante da perda inevitável, o melancólico ou depressivo se abastece de sentimentos ambíguos de amor e ódio, de saudade e recriminação, de frustração pela perda e de vitória pela sua própria sobrevivência. Essa fixação no perdido, por sua vez, remete a inúmeras outras perdas, na maior parte dos casos, mal elaboradas ou reprimidas. O trabalho da psicanálise para esses casos é oferecer um espaço de escuta e de introspecção em que se torna possível reconhecer a ambiguidades dos sentimentos, reviver as perdas do passado que emergem, organizar lembranças e memórias e realizar o desinvestimento de energia vital que está ligada ao que não existe mais.

Essa energia vital que Freud chamava de libido uma vez recuperada pelo trabalho psicanalítico pode enfim ser direcionada para novos objetivos, pessoas e situações, tornando possível a superação da melancolia.

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