Desamparo

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por Luís Bianco | Psicanalista

As medidas adotadas no passado recente, pré-Covid, por uma das nações mais poderosas do mundo, se não a principal delas, com relação à questão migratória exibiram, de forma convincente, os danos provocados em crianças pela sua separação forçada dos pais, considerados, no caso, imigrantes ilegais. Em função de tais medidas essas criaturas, assim separadas, foram enviadas a abrigos situados a grandes distâncias de onde aqueles pais estavam, ou encaminhadas a famílias adotivas.

Criaturas de tenra idade foram submetidas a tal situação por um período de até 50 dias e impedidas de se comunicarem com suas mães por semanas. Com a repercussão negativa gerada por tais medidas houve um recuo em sua implementação e foi iniciado o processo de reencontro destas famílias. De acordo com relatos de profissionais que atuaram junto às crianças liberadas, elas passaram a exibir sinais de ansiedade e outros problemas de saúde mental.

Um garoto de três anos, por exemplo, pretendia algemar e vacinar as pessoas ao seu redor, imitando um comportamento que certamente testemunhara no centro de custódia. Outros, que também apresentaram problemas desde então, demonstraram grande ansiedade quando tiveram que separar-se momentaneamente dos pais em
ocasiões em que estes iam banhar-se ou dirigiam-se para um outro local da habitação.

Dois irmãos rompiam em lágrimas quando viam policiais na rua.

Essas crianças, liberadas, não queriam estar sem suas mães. A ausência materna despertava um sentimento de abandono ou de que elas seriam levadas para longe. Mães passaram a observar que seus filhos eram mais extrovertidos e falantes e tornaram-se, depois do reencontro, calados e indiferentes. Alguns demoravam para processar informações ou situações.

Um dos casos mais dramáticos referiu-se a um garoto de cinco anos que antes de ser separado divertia-se com os brinquedos da moda. Sua brincadeira, após quase dois meses de separação, no entanto, era revistar e algemar “migrantes”. No primeiro reencontro o garoto, que não era amamentado havia anos, queria os seios da mãe para alimentar-se; ele escondia-se na presença de visitas e não conversava com pessoa alguma.

Foram essas as reais consequências que tais separações traumáticas tiveram na vida dessas criaturas e de suas famílias; consequências que persistiram mesmo após o reencontro. Vale observar que os próprios pais foram traumatizados, uma vez que os filhos foram separados deles em meio a lágrimas e apelos.

A separação da criança com relação à mãe e as consequências geradas em função disso constituem-se em temas básicos da Psicanálise. Desamparo é a palavra que resume a situação criada, situação que, para a criança, remete à fase de amamentação, quando era totalmente dependente da figura materna para a satisfação de suas necessidades como a fome e a sede, além do afeto. A falta daquele amparo, mesmo momentânea, é sentida como um perigo, gerando angústia.

Assim, uma criança colocada em situação afetiva semelhante àquela relatada anteriormente reage da mesma forma. Sua angústia dará origem ao que em Psicanálise chamam-se Mecanismos de defesa. Tais mecanismos são reações, patológicas, a uma situação de perigo, uma forma de proteção contra a angústia.

Dois, pelo menos, são os mecanismos de defesa, principais, contidos no relato acima: a identificação com o agressor e a regressão.

Vale salientar o fato de que, por conta da ansiedade geradora desses mecanismos, as criaturas anteriormente extrovertidas e falantes, tornaram-se caladas e indiferentes como informaram as mães.

Constata-se, então, o mecanismo de defesa da identificação com o agressor, naquele garoto que desejava algemar e vacinar quem estava ao seu redor. Agindo daquela maneira ele se identificava com aqueles que lhe causaram medo – os que vacinavam e algemavam – defendendo-se, portanto, contra aquele sentimento.

O mecanismo de regressão, por outro lado, é aquele aparente na criança que, tendo ultrapassado a fase do desmame, regrediu, desejando novamente os seios da mãe; buscava ele, assim, livrar-se da angústia regredindo à época da lactância, quando se sentia seguro e amparado pelos cuidados maternos.

Pode-se perguntar: quais seriam as formas de tratamento indicadas para a recuperação da saúde mental daquelas criaturas ou de outras em situações semelhantes? Tais situações, mais ou menos dramáticas, podem ocorrer também com aquelas enviadas à casa dos avós, ou criadas por tios ou famílias adotivas.

A resposta está na Psicanálise, que buscará nesses casos fortalecer nas crianças, bem como em adultos suscetíveis, a capacidade de tolerarem elevados níveis de ansiedade antes de recorrerem aos seus mecanismos de defesa. No presente caso, tal fortalecimento possibilitaria àquelas pessoas a recuperação da vivacidade natural e a retomada do desenvolvimento saudável de suas potencialidades.

Ocorre que, a despeito da repercussão negativa, na época, dos fatos relatados acima e das suas consequências, continuaram e continuam a existir centros de detenção e abrigos de crianças migrantes em alguns países. Certamente nesses locais, àquelas situações geradoras de angústia somaram-se outras, de consequências imprevisíveis devidas à pandemia do Coronavirus. Reportagens recentes relatam, inclusive, tentativas de suicídio entre pré-púberes, motivadas pelo isolamento.

As situações geradoras do sentimento de desamparo tiveram, assim, um incremento com a crise originada pela Covid-19, afetando, além das crianças, os adultos migrantes. São várias, segundo dados da imprensa tais novas situações. Uma delas refere-se ao aumento das repatriações dos menores aos seus países de origem, países que talvez não apresentem condições para garantir-lhes a segurança e a proteção. Tais repatriações são levadas à efeito sem que as crianças sejam testadas com relação ao vírus e sem a verificação de se necessitam proteção ante o medo de perseguições em suas pátrias.

Nota-se, na verdade, dadas as novas circunstâncias, que as crianças migrantes, nos centros de detenção ou abrigos, estão agora sujeitas a danos psíquicos ainda mais severos do que aqueles a que estavam sujeitas as criaturas mencionadas inicialmente. Maiores níveis de tensão as afetam principalmente nos casos em que a Covid-19 causa a morte de seus pais ou mães, o que pode aumentar sua exposição ao abuso. Além do que, não estão recebendo suporte durante a pandemia.

Assim como os mecanismos de defesa, os traumas relativos às perdas e ao luto fazem parte da teoria psicanalítica e, como tal, são passíveis de tratamento. Ou seja, pessoas afetadas por situações de desamparo como aquelas aqui descritas têm, na Psicanálise, importante fonte de auxílio. Tais situações, por outro lado, exigem uma reflexão mais abrangente sobre os rumos do processo civilizatório ao qual a sociedade moderna está submetida, tema, esse, não menos caro à Psicanálise.

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