Descobrindo a insegurança

por

por Marcio Ferreira | Psicanalista

Em um tempo primitivo, os chimpanzés viviam nas árvores. Um meio de
sobrevivência que lhes provia frutos e abrigo. Com a mudança climática, eles nascem para um novo habitat que se abre: as savanas africanas.

Entretanto, a “estação quadrúpede”, sem a proteção das árvores, parece um
engatinhar infantil. A nova situação expõe a espécie a um cenário de terror. Pois os implacáveis poderes dos predadores ameaçam a existência de nossos
ancestrais.

Sem casa, com fome e em constante medo, a vida está sempre por um fio.
O homem sonhava, durante o dia, possuir os poderes dos animais para melhor
se alimentar. E, durante a noite, era atormentado por verdadeiros pesadelos e histórias de horror.

O ambiente de risco constante e a perda de muitos “familiares” são um
trampolim drástico para o amadurecimento humano. A insegurança persistente é propulsora de um grandioso ato de bravura e evolução.

O homem se levanta e projeta sua imagem a ponto de dobrar de altura para
lutar por sua vida, enganando sua própria condição de presa, mesmo sem
nenhuma alteração em sua força natural. Assim, alimenta a esperança de um
futuro melhor, e aprende a soterrar em sua mente dores e fragilidades.

Organiza-se em numerosos grupos, tornando-se cada vez mais alto e largo e
se transforma num gigante e destemido guerreiro.
A genialidade de seus feitos gera a coragem de lutar e conquistar espaços e o
torna o mais poderoso animal do mundo.

Mas o sucesso da jornada traz uma marca fixada em suas entranhas, uma
ferida incicatrizável, e mantém uma persistente insegurança que está viva até
hoje.

A insegurança impulsiona o homem a almejar compulsivamente o domínio
absoluto, alimentando o desejo de “poder” e a busca por posições cada vez
maiores.

Simbolicamente, isso está presente em uma infinidade de artefatos:

Nos sapatos femininos de salto alto;
Nos pódios em competições esportivas;
Em carros com motores potentes;
Em prédios, nos arranha-céus cada vez maiores.

De fato, em qualquer hierarquia, a posição almejada é sempre a mais alta.
Nossos ancestrais foram vitoriosos, mas NÃO pisaram com pé direito no
mundo. Eles levantaram as duas patas dianteiras e pisaram com as patas
traseiras em tudo que algum dia os ameaçou, causou perda e sofrimento.

A insegurança que alimenta o desejo de poder, hoje é a nômade busca de
artifícios e fantasias para restabelecer as árvores perdidas e voltar ao paraíso
perdido.

Apagar as profundas e dolorosas marcas de nossa evolução seria poder
coexistir em paz com outras espécies, com as diferentes raças de nossa
própria espécie e com a própria natureza. Exaurindo a necessidade de ver, em
“tudo” e em “todos”, um inimigo a ser exterminado.

Ainda não construímos uma máquina que apague nossa história. Mas eu, homem, acredito que tenho um real superpoder: trazer para minha
consciência a capacidade de sublimar minha insegurança, meus desejos
inconscientes e curar feridas psíquicas antigas.

E assim fincar meus dois pés no presente e ocupar meu lugar.

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