Fofoca – Uma corrente destrutiva

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Por Iara Solange | Psicanalista

“Vem cá, deixa eu te contar…”. E assim pode ter início uma das coisas mais nocivas que pode estar presente no dia a dia de cada um: a “Fofoca” (no Dicionário de Português on line define fofoca como: “aquilo que se comenta com o intuito de causar intrigas”; “conversa sem fundamento”; “especulação”; “ação de bisbilhotar, de divulgar os segredos de outras pessoas”).

Não se sabe desde quando ela faz parte do convívio humano, mas é provável que tenha surgido com a capacidade do Homem de se comunicar por meio da linguagem verbal. A troca de informações dentro dos grupos primitivos era essencial para o desenvolvimento e até para a sobrevivência dos clãs. É possível que a fofoca tenha se desenvolvido a partir da percepção de que falar da vida alheia poderia trazer algum tipo de vantagem, privilégio ou benefício próprio.

O seu uso pode ser percebido durante o desenvolvimento infantil, quando a criança começa a se socializar. Ela, simplesmente, conta tudo que vê ou ouve. Não há maldade ou malícia nisso. É sua forma de participar da vida em grupo.

Porém, é preciso muita atenção por parte de quem recebe ou escuta o que essa criança tem a dizer. Existem lares onde os adultos incentivam o famoso “leva e traz” da criança, oferecendo recompensas em troca de informações. Valorizar situações desse tipo podem deixar registros no psiquismo infantil de que falar da vida dos outros pode trazer algum tipo de ganho ou benefício próprio.

Na vida adulta, essa pessoa poderá agir da mesma forma em todos os círculos dos quais irá participar. Talvez venha a manipular informações ou criar histórias falsas, com a intenção de obter algum tipo de vantagem, não importando os danos que possa causar. Muitas vezes poderá não ter consciência do quanto essa atitude costuma ser negativa e prejudicial. Pode-se ter a sensação de que estará sendo útil e justificar seu ato com frases do tipo “eu preciso alertar o fulano sobre”… Ou “vou te contar, mas é para seu bem…” Ou ainda “não posso guardar uma informação dessa só pra mim”.

A fofoca é um fenômeno social. Ela acontece a partir do convívio entre as pessoas. Pode chegar despretensiosa e causar grandes estragos. São informações passadas adiante sem responsabilidade e compromisso com a verdade, são desnecessárias e inúteis. Destrói relacionamentos de todas as espécies, pode denegrir a reputação, arruinar carreiras, reforçar e divulgar mentiras, depreciar serviços e instituições, etc… Para tanto, ela precisa de alguns elementos para se propagar. Pode ser comparada a um incêndio na floresta, que só acontece quando os componentes necessários para o fogo (lenha, oxigênio e fonte de calor) estão presentes.

Na fofoca, esses elementos estão presentes em conversas triviais no dia a dia: o assunto, a pessoa que traz a notícia e aquele disposto a ouvir, opinar e, quem sabe, levar adiante.

Uma forma de evitar o seu início, é estar atento sobre a veracidade, a necessidade e a utilidade da informação que está sendo partilhada. Perceber se existe a possibilidade de causar algum tipo de dano, ainda que não seja intencional e ter responsabilidade por aquilo que se fala.

O fofoqueiro precisa ser ouvido para alcançar seu objetivo de espalhar a fofoca. Alguns ouvintes levarão adiante aquele assunto. Serão elos da mesma corrente destrutiva. Conseguir identificar o tempo certo de se retirar de uma conversa que tomou rumo de fofoca é prestar um serviço a favor do enfraquecimento desta. Sem alguém que se interesse em ouvir e levar adiante, a fofoca se apaga.

É possível perceber que sem qualquer um desses componentes, nem fogo ou fofoca podem se espalhar.

É fato que a fofoca sempre fez parte da história humana. Pessoas ilustres e famosas foram alvos dela em diferentes épocas, com consequências muitas vezes trágicas. Porém, nos dias atuais, ao se expor em redes sociais, qualquer pessoa, famosa ou não, pode passar a ser um possível alvo das chamadas “Fake News”. Quando de trata da internet e do seu alcance, o resultado pode ser desastroso e, talvez, até irremediável. E a fofoca vai tomando proporções de um incêndio em larga escala.

Mas é preciso e importante lembrar que cabe a cada um o poder de conter esse alastramento. Para tanto é preciso perceber qual está sendo o seu papel em seu círculo de convivência. Porém, nem sempre essa percepção é clara. Nesse sentido, o processo psicanalítico pode ajudar, pois possibilita que se tenha um contato mais profundo consigo mesmo. Quando passa a se conhecer melhor, o olhar sobre si mesmo pode torná-lo mais atento. Pode ser capaz de identificar se está sendo um componente na propagação da fofoca e ter a possibilidade de escolher, de forma consciente, se quer fazer parte de uma corrente de destruição ou se prefere contribuir para o seu enfraquecimento.

“O menor desvio inicial da verdade multiplica-se ao infinito à medida que avança” (Aristóteles).

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