Infância interrompida

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por Luís Bianco | Psicanalista

Num passado distante, certo pensador alertava sobre a inconveniência da educação das crianças longe dos pais, em locais longínquos, que as impedissem de morar no próprio lar. Deveriam ser as crianças, de acordo com este pensador, educadas em suas casas, indo daí à escola e para aí retornando todos os dias. A educação no lar seria benéfica para os pais e para os filhos.

Com o passar do tempo, apesar das inúmeras transformações ocorridas, essa questão permaneceu atual, isso porque, hoje, muitas crianças vivem com avós, tios, outros parentes ou pessoas. Tais situações têm consequências na vida delas, dentre as quais interessa aqui discorrer sobre aquelas relacionadas à sua saúde psicológica.

Na atualidade, a educação longe dos pais é considerada, nas ciências voltadas à saúde mental (a Psicanálise entre elas) como uma situação que pode gerar transtornos psíquicos nos relacionamentos[1].

Foi esse tema, o afastamento precoce do lar e suas consequências, que talvez tenha inspirado o filme Cidadão Kane, de Orson Welles, pois se sugere que os interessados assistam aquele que é considerado, pelos críticos, o melhor filme já realizado.

Nele, o protagonista, por iniciativa da mãe e a despeito dos protestos do pai, é colocado, ainda criança e por interesses financeiros, sob a guarda de um tutor, deixando então definitivamente sua casa.

Já adulto e assumindo o controle de uma fortuna, opulência e poder preencheram sua vida. Ao morrer só, porém, pronunciou uma única e enigmática palavra; palavra cujo significado permaneceria desconhecido de todos aqueles que com ele conviveram.

Para alguém que deixara o lar de uma maneira prematura e fora privado do convívio com o pai e com a mãe, o que tal palavra representava, adquire um importante significado de acordo com a teoria psicanalítica.

Ilustra a permanência de reminiscências que indicam a possível ocorrência de um trauma psíquico: como um choque mental, uma ferida na alma e passível de causar transtornos permanentes. Transtornos de relacionamentos, principalmente nos mais próximos, como mostra o filme, na convivência problemática do protagonista com suas mulheres, que tiveram também suas vidas afetadas de uma maneira profunda.

No caso do personagem poderoso e opulento, mas solitário na morte, a última palavra pronunciada com certeza era indicativa do trauma sofrido na infância em função da privação do convívio com os pais e com o ambiente familiar. Tal palavra era o nome do “trenó” com o qual ele brincava e que simbolizava a felicidade vivida até a ruptura precoce. Felizmente, pode-se contar hoje com o auxílio da Psicanálise para a identificação e tratamento adequado desses transtornos de relacionamentos gerados, não de maneira exclusiva, mas inclusive, pela educação longe dos pais, para que não comprometam a qualidade de vida de uma pessoa e a qualidade de vida daquelas que com ela se relacionam.


[1] DSM-5 Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.

Problemas de relacionamentos – pagª 759/760 – 5ª edição.
716 – Outras condições que podem ser foco de atenção clínica.

V61.8 (Z62.29) Educação Longe dos Pais.

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