Julgamento nas relações

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por Silvana D’Avino | Psicanalista

É importante lembrar qual a definição que temos para a palavra “julgar”. Julgar significa “ter uma opinião sobre algo; expressar um parecer, um juízo de valor acerca de… No popular, muitos dizem: a vida o julgará pelos seus erros, entre outras falas.

E o que se pode pensar sobre relações? São todas as pessoas que convivem umas com as outras, é poder cultivar amizades, relações de trabalho, ter cortesia, entre tantas outras que todas as pessoas vão construindo.

Quando pensamos em manter relações podemos até dizer que é muito fácil, que é algo que estamos muito acostumados, que “tiramos de letra”, porém não é tão simples assim, pois o ser humano é complexo, e estabelecer relações muitas vezes é complicado. É conviver e ter que saber conviver com os defeitos dos outros, com as manias dos outros, com vícios, etc. Pois é, quantas pessoas passam por situações bastante difíceis na convivência com os próprios familiares?

Para conviver com alguém não basta simplesmente gostar desse alguém, envolve muitas outras questões.

Sempre estamos nos relacionando com pessoas que consideramos serem difíceis, com o chefe chato, ou com o parente esquisito. Tudo isto se torna ainda mais difícil a partir do momento que julgamos que o outro fez tudo errado, que não deveria ter feito tal coisa, que deveria ser igual a nós, que deveria ter feito como fazemos, julgamos que a pessoa é assim ou assado.

Julgar o outro pode ser uma defesa do próprio ego para se proteger, pois ao ver o outro e não vê a si mesmo. Porém é uma forma de defesa enganosa, pois segundo Sigmund Freud (Pai da Psicanálise), projetamos aspectos nossos nos outros, e nem percebemos.

Quando julgamos alguém, ou falamos de alguém, estamos falando de nós mesmos, porque julgamos a partir do que temos dentro de nós. Julgar o outro é atribuir ao outro algo que é seu. Falamos a partir das nossas experiências, vivências e sob a nossa ótica da vida e das situações.

Cada pessoa tem a sua história de vida, a maneira própria de enxergar e perceber as situações ao seu redor. Cada pessoa vê o mundo e as relações a partir de seu ponto de vista.

Cada percepção que temos de alguém se dá a partir da interpretação e da imaginação própria.

Lembrando que ao mesmo tempo que julgamos estamos sendo julgados.
A grande verdade é que não sabemos e não temos ideia de quem de fato é a outra pessoa.

O que ela sente, como ela percebe as situações ao seu redor, qual o esforço que fez para chegar onde chegou, enfim, julgamos as pessoas sem sentir na pele do outro, mas julgamos através de sentir a nossa própria pele, ou seja, julgamos a partir da nossa percepção.

Perceba como é perigoso você ser julgado por alguém que não tem ideia do que você passou e o duro que você deu para alcançar os resultados que conseguiu.

O mundo é complexo, as relações são complexas o suficiente para não se ter uma única verdade, mas sim a verdade de cada um.
Estamos sempre precisando tomar decisões, seja na família, no trabalho, com os filhos, com amigos, e as decisões são únicas e próprias de cada um, de acordo com as experiências que viveu, com as oportunidades que teve durante os anos vividos.

São decisões que outra pessoa não pode tomar por nós, cabe somente a própria pessoa decidir o que é melhor para ela, pois é ela que terá que dar conta da sua decisão, ou seja, se responsabilizar da forma que sabe e pode fazer.

Por este motivo, antes de emitirmos um julgamento nas nossas relações devemos tentar entender e principalmente respeitar o outro, pois cada um só faz o que sabe fazer ou como pode fazer.

A partir do momento que mudamos a visão sobre o “julgar o outro”, a sensação é que sai um peso dos ombros de quem sempre julga, pois assim, entregamos a responsabilidade para quem é de direito.

Julgar como alguém deve se vestir, ou que deveria ter agido de tal forma, ou deveria ter falado tal coisa etc., etc., é muito simples, o difícil é parar e perceber por qual motivo você está dizendo o que o outro deve fazer e qual decisão deve tomar.

Sempre é mais fácil olhar para a vida do outro do que olhar para a sua própria vida. Devemos saber ouvir, respeitar as decisões das outras pessoas, pois isto ajuda a deixar o outro ter a sua própria responsabilidade em suas decisões.

A minha crença não pode ser imposta ao outro, pois a minha crença pode ser destrutiva para o outro. Além do mais, quando julgamos alguém, estamos deixando subentendido que o outro não é capaz de fazer!
Toda relação precisa ter equilíbrio e quando julgamos o outro estamos querendo mostrar que ele é inferior.

Devemos olhar e refletir por qual motivo inconsciente estou julgando. Olhar e aceitar o que é diferente pode ser muito difícil.

Podemos contar com a ajuda da Psicanálise para encontrarmos nossa própria verdade, pois a partir do momento em que olhamos para os nossos sentimentos e atitudes, conseguimos perceber o quanto é libertador ter o controle da própria vida, assumir as nossas responsabilidades e dar conta das nossas decisões.

As relações se tornam mais leves e mais prazerosas.

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