O que é mais importante para você?

por

por Márcio Ferreira | Psicanalista

Conhecimento, filhos, dinheiro, carreira, segurança, casamento?… Calma!

Respire profundamente e mergulhe dentro de você.

O que existe de mais valioso? E o que realmente importa? No nascimento, somos asfixiados até bem próximo da morte. E a falta de oxigênio acende o reflexo de inspirar pela primeira vez.

E ganhamos VIDA.

A vida é simplesmente o mais importante BEM que temos. A quase morte nos dá a vida.

Estarmos vivos causa uma emoção única e extremamente potente:
uma explosão energética, em que todas as células do corpo descarregam uma energia vital.

Assim percebemos que estamos VIVOS. Mas o termo VIVO pode nos dar uma falsa impressão: a de estarmos parados… Sentados, deitados, quietos.

Mas VIVO quer dizer VIVENCIANDO… andando, correndo, falando, trabalhando, dormindo …

Ex.pe.ri.men.tan.do.

O MOVIMENTO SIMBOLIZA A VIDA.
O PARADO SIMBOLIZA A MORTE.

Por que na primeira pergunta não respondemos que viver é o que mais importa?

A substituição do prazer de viver por outros prazeres do cotidiano ou por necessidades nem sempre essenciais nos aproxima muito mais da morte. E a consequência é de que a VIDA ganha status de secundária.

Comumente falamos:

  • Vou conseguir casar com ele nem que seja a última coisa que eu faça;
  • Prefiro morrer a ir trabalhar hoje;
  • Não consigo viver sem aquele sapato.

Nossas vontades “mundanas” são superpotencializadas com a mobilização da força vital para um cenário cotidiano e se transformam numa luta incondicional de sobrevivência.

O desejo não vivenciado provoca uma intensa reação, uma explosão de emoções e desemboca numa forte obsessão, a ponto de produzir grandes distorções na personalidade. Tornando até justificáveis as perversões e os sofrimentos.

Sem poder vivenciar todas as vontades, os prazeres escolhidos têm um ar de morte.

Cigarro, bebidas, relações tóxicas, excesso de trabalho. Esses são prazeres que ocultam a morte! E vêm lentamente com um sofrimento amargo e crônico.

Esta é a denúncia que a vida não é mais importante e que estamos perdendo a identidade e ganhando uma nova pele, uma casca, um novo corpo. E um novo centro de comando se estabelece.

Um novo ser engloba o verdadeiro e começa a falar por nós. E o verdadeiro fica silenciado, abatido e frustrado pelos insucessos do dia a dia e se prende dentro de uma resistente carcaça que se forma.

A vida vai se esvaindo, num quartinho escuro, pelos seus incontroláveis desejos e quereres. A convivência com os familiares e amigos já não é mais possível e você não é mais reconhecível.

Podemos chamar este estado de patologia psíquica, na qual outro ser fala pelo seu verdadeiro ser.

Então, ocorre a substituição do bem mais precioso que é a VIDA, por objetos, situações e cenários idealizados e, consequentemente, sem eles preferimos a morte.

Simplesmente PARAMOS de viver ou CORREMOS SEM SAIR DO MESMO LUGAR.

E por que fazemos isso? Na primeira inspiração, ganhamos vida.

O nosso único bem precioso e o único que não podemos perder. E percebemos que temos muitas necessidades para sobreviver e que dependemos de pessoas e situações.

Logo sentimos fome e temos muito prazer no seio materno; logo sentimos frio e em êxtase sentimos o calor do colo.

Em contraposição, para tudo que ameaça nossa vida, buscamos uma solução que, quando atingida, proporciona uma grande VIVÊNCIA de prazer. A associação direta entre prazer e vida se liga então a tudo que nos permite manter nosso bem mais preciso. E, com isso, a vida se mantém como prioridade.

O prazer marca que atingimos conquistas e nos mantemos vivos. Então, fantasiosamente, o sofrimento e a dor precisam ser exterminados, pois eles ganham sentindo de morte.

Este último fato é um dos precursores para as patologias, pois a dor e o sofrimento são, na realidade, alertas que nos impulsionam à solução de vida a ser atingida.

Mas o conflito entre o prazer e a dor não deveria existir, pois sua função é ser um unificado promotor de vida.

O bebê quase morre e inspira.
Sem esforço, não há conquista.
Sem fome, não há vontade de comer.
Sem abstinência, não há sexo.
Uma vida só de prazeres é uma vida vazia e cheia de dor.

Pois os gerúndios, os verbos em movimento, fazem o VIVENCIANDO ser a única prioridade de nossas vidas.

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