Os Murmúrios da Alma

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O amor à verdade atravessa desertos e triunfa dentro das cavernas

A determinação de Sigmund Freud em decifrar os murmúrios da alma teve o imprescindível apoio do pai Jakob Freud com os apontamentos da cultura judaica. Dos oito filhos de Amália Freud, o menino Sigmund sempre foi tratado com primazia, pois quando nasceu, em maio de 1856, foi ungido com a manta de ouro.

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Com seu olhar cristalino, Amália indicou os oráculos onde Freud teceu os sonhos de servir à humanidade; fato importante quando se trata do seu imenso amor aos livros , em especial os diálogos de Miguel de Cervantes.

Com essa botija de letras douradas, fundou uma academia de letras para enaltecer os signos da língua espanhola. Ao longo da vida, bebeu na fonte dos cânones literários: Shakespeare, Schiller, Goethe, Heine. “Aonde quer que eu tenha pisado os pés, um poeta já pisou antes de mim”, disse em gratidão aos homens criativos.

Sua trajetória se insere no rol dos humanistas e pacifistas. Basta ler “Por que a guerra?” de 1932, carta endereçada a Einstein na qual destrincha a regência da destruição. Nesse sentido a obra “Considerações atuais sobre a guerra e a morte”, de 1915, é enfático quanto ao espectro da “carniça” que ronda a civilização.

Em nome da causa psicanalítica, arvorou-se na história de Darwin e Copérnico, pois ambos infligiram o mais duro golpe no narcisismo tacanho, por excelência. Desde cedo, assumiu a causa do seu povo, pois sentiu na carne o ferrão da truculência, assim sendo, jamais aceitou o episódio em que o pai foi humilhado numa calçada de Viena, e esse exercício de prepotência do antissemitismo atravessou seus caminhos até o final da vida.

A barbárie nazista queimou seus livros; confiscou seus bens; expurgou o movimento psicanalítico; prendeu Anna, sua filha; assassinou suas irmãs em campos de concentração. Expulso de Viena, exilou-se em Londres, que o acolheu com carinho e na Maresfield Gardens, sua última residência (hoje Museu Freud), todos os dias lia os jornais para acompanhar o desenrolar da carnificina.

A guerra era a comprovação da pulsão destruidora que reveste o homem. Com esse testamento, fruto de longos anos de paciente investigação, tinha razões de sobra para entoar cantigas pessimistas – afinal, o desejo do homem é retornar ao útero da mãe terra, que assim o diga “Além do princípio do prazer”, de 1920.

Em 1873, começou os estudos em medicina e a partir desse momento manifestou grande interesse pelas pesquisas, isso era parte do fervor iluminista. A ciência era seu baluarte, sua estrela guia. Ao especializar-se em Neuropatologia, queria compreender o avesso da carne e com seu faro de pesquisador dirigiu o olhar para o repertório das histéricas: almas penadas que infestavam os hospitais de Viena.

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Portanto, a grandeza de Freud, que não estava interessado na clínica médica, foi questionar a certeza dos protocolos oficiais. Seu mérito foi aguçar a escuta em direção ao sofrimento daquelas desprezadas.

Sua grandeza foi dizer, com muita ênfase, que a fala era fundamental para o sujeito desvelar as próprias tormentas. Até a morte em setembro de 1939, foi um arqueólogo que não fraquejou diante da rocha íngreme.

A tarefa foi árdua, pois em nome da causa psicanalítica rompeu com Breuer, Fliess, Jung, Adler, Rank. Basta ler “Contribuição à História do Movimento Psicanalítico”, de 1914, que aborda a travessia dos desertos. Nesta narrativa, mostrou o Ego como uma casca de couro carcomido pela tirania do Superego.

Em sua missão civilizadora, descortinou o inconsciente como um pote de águas turbulentas onde predominam as cenas de fantasia, essa verdade de cabeça invertida, cujo homem é apenas um “bicho desembestado”, “não é senhor em sua própria casa”, pois nos sonhos trafegam o fóssil estilhaçado da infância, onde a angústia de despedaçamento é parte da cartilha e o reinado da perversão faz morada. Vale ressaltar que fazer análise é adentrar o labirinto onde lateja o engulho recalcado nas pregas da escuridão, “ninguém escapa de si mesmo”.

Freud, seu roteiro é de amor à verdade – um extenso plantio de gardênias, sua flor preferida, como se lê no texto “Transitoriedade”, de 1916 – pois cada pétala tem um estatuto de grandeza. Sim, o senhor colocou à nossa disposição o bastão reluzente do saber e com muita coragem atravessou desertos e adentrou a fundura das cavernas, “triunfou onde muitos falharam.”

Mario Cezar Queiroz – Psicanalista e Psicoembriólogo

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