Pais são pais!

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por Sonia Paschoalique | Psicanalista e Psicoembrióloga

Nos primórdios da humanidade, os pais alimentavam sua cria e a protegiam dos perigos dos animais ferozes e condições climáticas severas. Se a criança manifestasse qualquer comportamento não condizente ao esperado, provavelmente esses pais primitivos recorreriam ao ancião do grupo para que fizesse uso de algumas rezas e poções para afastar os maus espíritos. Talvez a própria mãe, individualmente, tenha usado ervas encontradas na natureza.

Esses pais também se preocupavam com a vida da cria, uma vez que quanto mais pessoas no clã, maior o poder de caça e defesa.

Algo mudou?  Em relação ao instinto de preservação da espécie, não, mas no modo de como lidar com essa preservação, sim, pois não basta garantir o bife de cada dia, afugentar os perigos da selva ou consultar o mais sábio de vez em quando. Se antes era complicado, agora ficou um pouco mais difícil, devido ao acesso às informações da ciência moderna, que chegam diariamente aos lares com a rapidez da globalização apresentando a cura para os novos tipos de doença.

Na neurose dos pais contemporâneos, provavelmente nada diferente dos ancestrais pré-históricos, existe a mesma preocupação de manter o filho com risco zero, além de transformá-lo num ser dentro dos melhores padrões de desenvolvimento físico, mental e espiritual. Só que em outro contexto  de  grupo  e  formato de  civilização.  Talvez uma preocupação um pouco mais obsessiva, digamos assim.

Indiscutível a necessidade de higiene do ambiente, do corpo, dos alimentos para a preservação da saúde (e da espécie). Mas e as brincadeiras na terra  batida? E a fruta tentadora lá no galho mais  alto? E o andar de bicicleta pela primeira vez e, ainda por cima, sem ajuda de  ninguém?

É mais do que justa a preocupação com os perigos do mundo real, mas é necessário que a criança se relacione com o mundo  externo, adapte-se a ele, conheça  os riscos e aprenda a tomar cuidado de si própria. Os pais não poderão vigiá-la eternamente e  entender que uma dor de barriga, um cotovelo esfolado, uma mão suja de terra faz parte de uma infância normal.

A criança superprotegida fica presa ao psiquismo dos pais e encontra dificuldade para se desenvolver, adquirir iniciativa e senso de responsabilidade.

E como lidar com essas questões em tempos de pandemia? Em tempos quando todos estão sob o mesmo teto vinte e quatro horas por dia? Afinal, hoje os filhos passam esse período obrigatório com os professores on-line, diante de um celular ou um computador, enquanto os pais, muitas vezes, estão trabalhando no mesmo ambiente, sendo que essas crianças não têm acesso nem à terra do jardim do prédio.

Os pais pré- históricos, por sua vez,  precisavam apenas de uma caverna e uma fogueira para sentarem-se todos próximos uns dos outros e conversarem sobre as descobertas daquele dia, talvez até comentando  sobre o  lindo  céu estrelado. Era o que conheciam e o que estava ao seu alcance.

E hoje, estando as  famílias  confinadas em suas casas, como os pais poderiam aproveitar as experiências dos seus ancestrais e reinventar esse contato com os filhos modernos? A resposta está dentro de cada pai, de cada  mãe e no filho que aguarda ser olhado. E  fundamentalmente…  na força da família.

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