Os pequenos órfãos da Pandemia

por Juliana Campos | Psicanalista

Mais de um ano se passou desde o início da pandemia e muitas vidas se foram. Não apenas perdas físicas, mas outras inúmeras perdas, como lutos simbólicos, certamente refletirão nas famílias que, atualmente, tentam seguir em frente.

Porém, um olhar atento deve ser dado a uma parcela desses enlutados: as crianças. Sim, muitas estão vivenciando lutos e não há de se fechar os olhos para tal realidade: como elas irão lidar com tudo isso?

Milhares de crianças então tendo que vivenciar a perda de pai, mãe, avós, parentes e amiguinhos. Não apenas de um, mas de mais de um, ou de vários ao mesmo tempo.

Lutos múltiplos na vida desses seres tão pequenos, ainda em formação. Se para um adulto esse processo já demanda energia e requer recolhimento para vivenciar a dor e ausência, imagine para uma criança.

Dentre tantos desafios que a infância já exige no processo natural do seu desenvolvimento, a criança enlutada precisa primeiro compreender o que significa a perda e como ela estará alicerçada nesta nova configuração de lar que passará a ser seu por definitivo.

A criança não perde apenas o seu genitor(a) ou o seu provedor. Há uma perda de amplitude muito maior.

A mudança, o distanciamento do seu, ainda pequeno, universo social, a ruptura de laços afetivos com colegas, dentre tantas mudanças drásticas. Será que ela teve a possibilidade de ser informada de tudo isso?

É evidente que no turbilhão de tantas emoções, as vezes a criança é aquela que “sem consciência” dos fatos é “poupada” da notícia da perda.

A criança, independente do fator cronológico, já é um ser de linguagem, como disse Françoise Dolto, pediatra e psicanalista francesa.

A criança é uma esponja que capta tudo e sim, entre verdades não ditas, ela sente a ausência, a mudança, a dor.

Ela sente tudo, mas não sabe o porquê. E essas emoções incompreendidas podem reverberar dentro dela, afetando sua vida com sintomas como falta de apetite, isolamento, problemas de fala, dificuldades no aprendizado entre outras infinitas mudanças em seu comportamento físico e mental.

A criança desde que nasce, conhece a linguagem através dos pais. Ainda no ventre, ela os escutava e serão essas as vozes que serão capazes de acalmá-la, agora em um mundo novo e desconhecido.

A pandemia trouxe muitas inseguranças de como lidar com tantas incertezas. Não há uma fórmula mágica de como trabalhar o luto infantil. Entretanto, acolher a criança que perde um de seus pais (ou ambos) e/ou parentes ou amigos é de extrema importância.

E se não houve a perda de alguém de forma física, a criança sente a perda simbólica assim como os adultos. Esse processo demanda tempo e paciência, e se necessário, atendimento especializado de profissionais da área mental.

A Psicanálise é uma ferramenta que muito poderá colaborar no percurso dessas crianças, possibilitando uma escuta atenta e uma forma da criança reconhecer em si, a força que ela carrega dos seus genitores.

Força essa que contribuirá para que ela prossiga o seu caminho, sempre acompanhada daqueles que, no seu psiquismo, a mantém ligada aos que um dia se foram.

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