Projeção

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por Dolores Araújo | Psicanalista e Psicoembrióloga

O trabalho do profissional psicanalista é, junto com o seu paciente, percorrer e desbravar o inconsciente, que se traduz em um mundo atemporal, profundo e desconhecido, onde habitam memórias remotas e primitivas, e de onde se origina o processamento de quase tudo que acontece no dia a dia do indivíduo.
Freud representou a psiquê humana dividida em três instâncias: Id, Ego e o Superego, que tem a ver inconsciente, pré-consciente e consciente.

O Id é inato, instintivo e opera no nível do inconsciente. Somos ele quando nascemos. Guiado pelo princípio do prazer, armazena os desejos primitivos e secretos, paixões e agressividades. Sua busca é sempre pela gratificação. No entanto, é também a fonte de sofrimentos e aflições, quando não é atendido pois a vida não é feita apenas de prazer.

O Ego nasce do Id e deve ser fortalecido para conciliar a busca pelo prazer com a realidade do ambiente onde vive o indivíduo.
O Superego é a outra instância psíquica que, diferente do ID, nem tudo convém. Exigente e rigoroso, seu princípio é o do dever e da moral, e garantir que as regras sejam cumpridas.

O acesso ao inconsciente, onde estão ancoradas os desejos, demanda trabalho lento e exige paciência.

O inconsciente se constitui de registros feitos desde muito antes da gestação do indivíduo. Naturalmente, não podemos deixar de levar em conta que no momento da união do espermatozoide com óvulo, quando ocorre a doação dos cromossomos (vinte e três doados pelo pai e vinte e três doados pela mãe), há também a herança de registros advindos de toda a ancestralidade daquele ser que está se formando.

Além de todas as informações transmitidas neste momento, o bebê também irá receber informações a partir das emoções vivenciadas, especialmente pela mãe, mas também pelo pai e pelo ambiente em que está sendo gestado. É a partir disso tudo que se constitui e nasce um novo ser.

Parece simples: o indivíduo vai se desenvolvendo psiquicamente e suas emoções e comportamentos são reflexos de tudo aquilo que assimilou e processou durante esse percurso. Essa é apenas uma parte da verdade, uma vez que nem tudo o que foi processado pode ser observado à primeira vista. Boa parte do que representam os conteúdos registrados está imersa nas profundezas do inconsciente e defendidos por mecanismos que só com a técnica psicanalítica poderão ser identificados.

Na mente humana, assim como na natureza, nada acontece por acaso ou acidentalmente. Por trás de um fato que, aparentemente, pode ser considerado uma casualidade, há um desejo inconsciente do indivíduo.

A Projeção, um dos mecanismos de defesa do ego, está relacionada com as características que o indivíduo identifica no outro, mas não consegue ver em si mesmo. A Projeção é um espelho, que reflete, de fato, o que somos, mas não sabemos que somos.

Por trás de uma pessoa projetiva tem sempre preconceitos e julgamentos, um ser crítico. Esta postura tem relação com crenças, muitas vezes, ancestrais, hábitos e costumes que foram introjetados através dos tempos. São traços incômodos demais para se assumir, e a forma que o inconsciente encontra para evitar o desprazer é projetando-os para fora.

A Psicanálise, como já dito, é um bom caminho para que esse movimento involuntário seja trabalhado e os fatos que o geraram possam ser revistos e ressignificados. Identificar o problema e não ter que permanecer, eternamente, identificado com ele. O psicanalista cumpre um papel no sentido de auxiliar o seu paciente a percorrer a sua própria história e com isso, buscar a transformação através de escolhas diferentes.

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