O que a Psicanálise pode fazer por você?

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Por Arnaldo Rodrigues – Psicanalista

A expectativa de vida tem aumentado consideravelmente e com ela o horizonte de possibilidades. Gradativamente setores da vida como trabalho, relacionamentos e desenvolvimento pessoal têm perdido a especial atenção. Observa-se que um maior tempo de vida tem contribuído para diminuir substancialmente a urgência do direcionamento nesses setores. A escolha por uma carreira, a formação de um vínculo afetivo, a opção por ter filhos, a busca por conhecimento, tudo isso, se impõe de maneira bem diferente da que era imposta há alguns anos. O padrão seguido era escolher a profissão, casar-se, ter filhos, aposentar-se e morrer com aproximadamente 60 anos, esta já não existe mais. Inclusive essa imposição (termo que foi escolhido com um propósito peculiar nesse texto) perdeu a sua força. As coisas estão amorfas, ou como Zygmunt Bauman observou, “líquidas”. A busca por uma imortalidade existencial tem tornado a vida sem sentido!

Não é por acaso que, em compasso com esse fenômeno, a imprudência com a vida e a desestruturação da sociedade têm sido mais marcantes. Morre-se muito mais hoje em decorrência de acidentes, suicídio, abuso de drogas e violência; ao passo que antigamente guerras e outras doenças, que para medicina de hoje são simples de serem tratadas, eram os principais motivos de óbitos. Ao que tudo indica, o ser humano não está sabendo o que fazer com os avanços da medicina e de outras ciências. Para os contemporâneos, o texto de Sêneca sobre a “Brevidade da Vida” continua atual; clamam pela imortalidade, buscam diminuir os limites que a vida tem, mas a tratam com verdadeira irresponsabilidade e infantilidade frente ao que foi alcançado. Consoante a isso, o imediatismo e a busca desenfreada pelo olhar alheio denunciam a apatia pelo mundo interior.

No início do século passado, houve um desenvolvimento exponencial das ciências e com ele o pensamento mecanicista. O homem foi tragado para uma esteira de processos automatizados e tolhido de dar vazão aos impulsos que o organismo gera naturalmente. Atrelado à padronização do que se convencionou chamar de “normal” ocorre o adoecimento do corpo e da mente, fruto de um conflito que se intensificou na dicotomia desse período histórico.

E é sobre essa retrospectiva de um olhar atento ao passado que se iniciou com uma meia volta e se observou as pegadas deixadas, desde a época atual até dois séculos atrás, que se constituirá a ideia em torno do tema. Não por acaso a Psicanálise desabrochou também nesse contexto histórico e desde então vem “tirando o sono do mundo”. Freud percebeu que a sociedade havia chegado a um patamar em que as imposições sobre o indivíduo, internas e externas, haviam de certo modo “passado do ponto”, como algo que não contribuiria para um equilíbrio, e que isso estava afetando a saúde das pessoas. A histeria e a neurose obsessiva foram as primeiras psicopatologias estudadas por ele nessa época. Em sua frase, “Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro” traz perfeitamente a síntese do que foi dito até agora.

A humanidade foi de um extremo ao outro, oscilou entre dois lados, em um movimento inercial constante atravessou a cortina de fumaça da história, com suas guerras e conflitos ideológicos, e hoje o pêndulo encontra-se no extremo oposto. Tudo o que se tem hoje, materializado na realidade, foi inicialmente uma construção mental daquilo que foi desejado; como Freud disse: “o pensamento é o ensaio da ação”, portanto o que está sendo vivenciado hoje é a materialização do pensamento, de um impulso que se transformou numa ação. Várias mentes ligadas a um pensamento geram força capaz para criarem uma realidade. E é dessa consciência que nascem as mudanças necessárias. Tanto no plano do individual quanto do coletivo.

Para física, a força resultante de um sistema de forças consiste no efeito produzido por uma força única capaz de produzir um efeito equivalente ao das várias forças aplicadas. Esse conceito pode ser muito bem transportado e aplicado no campo da psicologia do indivíduo e do coletivo. Os diversos pensamentos, consoantes ou conflitantes, têm uma força resultante que se transforma em ação produzindo um efeito na vida da pessoa. Já no plano do coletivo, as diversas ações que cada indivíduo tem, formam uma resultante que produzirá um efeito na vida de todos.

Diante disso tudo, responde-se agora o que a psicanálise pode fazer por você. De modo bem simples, imagine se você pudesse ter mais consciência de quem você é. Se conseguisse entender o que está havendo em sua volta e a partir disso criar um caminho, alinhando cada um dos seus impulsos e desejos em um único vetor. Ter em mente um objetivo e conseguir realizá-lo, sem se auto sabotar. Ter mais disposição para executar essas ações. Ser apenas você, se aceitando em suas limitações, sem perder tempo em julgar a si e aos outros. Agora imagine isso sendo aplicado em escala global, todas as pessoas buscando ser tudo aquilo que podem ser, fazendo o que elas gostam de fazer e tratando com ética e respeito uns aos outros. Pois então, é a isso que ela se propõe. A psicanálise não faz com que o indivíduo reescreva a própria história, mas o ajuda a ressignificar, fomentando um caminho que torne o percurso da vida, a partir daquele ponto, em algo que o indivíduo possa chamar de felicidade.

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