Solidão a dois

por Sonia Paschoalique | Psicanalista e Psicoembrióloga

Com objetivos claros e definidos, seja para formar família com filhos ou apenas ter com quem passar a velhice, casais se formam, para juntos caminharem em um projeto de vida a dois.

Com o tempo, para alguns casais a convivência e as responsabilidades poderão afetar sensivelmente o relacionamento, quando cada um começa a culpar o outro pelos possíveis obstáculos que possam encontrar pela frente.

As várias demandas de trabalho dentro e fora de casa, a situação financeira, a pouca disponibilidade para uma relação a dois, a criação de filhos com necessidades diferentes e a própria rotina, que talvez se estabeleça diariamente, podem desunir o casal que, lá atrás, fizera planos e sonhara com a parceria em um futuro brilhante e alegre.

No lugar de palavras reconfortantes e carinhosas surgem os não ditos, apenas sugeridos por expressões de “para mim é indiferente”, “você é quem sabe”, “faça como quiser” … Os olhares, vazios de esperança, já não se cruzam mesmo que os corpos possam viver dando trombadas.

O espaço compartilhado torna-se minúsculo para duas pessoas que apenas se toleram, unidas pelo status de pai e mãe de filhos que não veem a hora que cresçam e tomem seu próprio rumo, ou de viver uma solidão a dois, simplesmente.

Outros, no entanto, sentem-se sozinhos mesmo quando estão juntos e dividindo as mesmas facilidades ou dificuldades. São casais que receiam a solidão mais do que tudo, porém sentem que ela faz parte da sua maneira de viver e conseguem suportá-la. Por quê?

A forma de interagir com o mundo baseia-se no relacionamento com os pais desde a vida embrionária e a prática da intimidade mãe-bebê funciona como uma impressão no aparelho psíquico da criança.

Um pensamento da mãe transtornada com mudanças corporais na gravidez, um olhar materno de desaprovação pelas exigências naturais do bebê ou o simples fato de sentir que não poderá dar conta da função materna por várias razões, poderão influenciar negativamente na percepção de mundo da criança, que irá interpretar para sempre com sentimentos de rejeição, não pertencimento e, consequentemente, solidão.

Pessoas podem estar juntas, mas com os corações distantes e pensamentos que caminham por ruas paralelas que jamais se cruzarão.

A angústia e o vazio no peito clamam por uma palavra, um olhar, um afago que pode até ter sido oferecido no decorrer da caminhada, mas pelo vazio de não emanarem da fonte de lembranças primitivas onde a vida começa, não são reconhecidos.

A psicanálise é uma excelente terapia para acolher a dor da solidão, dando voz aos conflitos de interação com o outro e com o mundo, através da reelaboração de percepções e compreensão da história familiar do sujeito.

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